segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Karla-deficiente x Karla-psicóloga

Karo leitor, como você já deve saber, sou psicóloga. Durante os cinco anos de faculdade de Psicologia, conhecemos muitas teorias, estudamos abordagens diferentes, fazemos estágios e quase enlouquecemos com o tal Trabalho de Conclusão de Curso (vulgo TCC ou monografia). Lembro-me que há quase 2 anos dei uma entrevista a uma rádio e a jornalista me perguntou se eu tinha feito Psicologia para resolver coisas minhas (outra para a sessão “pérolas da minha vida”!). Minha vontade foi dar uma gargalhada, rolar no chão e dar três pulinhos, mas, como não sei pular e sou uma moça educada, apenas respondi que se você tem algum trauma ou algo muito sério para resolver, procure um psicólogo e não caía na besteira de ir para o curso de Psicologia para isso. Bom, dentre os preceitos fundamentais sobre a relação terapêutica entre o paciente e o psicólogo estão a transferência e a contratransferência. Se você não é da área dos filhotes de Freud, fique frio... explico simples e resumidamente: transferência é o conjunto de sentimentos positivos ou negativos que o paciente dirige, inconscientemente, ao terapeuta em decorrência de suas vivências anteriores. Por exemplo: às vezes, a pessoa projeta a figura do pai ou da mãe no(a) terapeuta e aí consegue trabalhar algum conteúdo (se o trabalho for bem feito). Já a contratransferência é a reação inconsciente do terapeuta à pessoa do paciente. O que tudo isso quer dizer, na prática? Quer dizer que a transferência se faz necessária ao trabalho terapêutico e o terapeuta deve saber trabalhá-la com o paciente; ao passo que a constratransferência exige um pouco mais de cuidado por se tratar dos conteúdos do próprio terapeuta. Aprendemos, então, sobre a importância da imagem do terapeuta e neutralidade das roupas, dos acessórios e as posturas éticas. E o que isso tem a ver com deficiência? Tudo!

No quarto e no quinto anos de faculdade, tive que fazer os estágios obrigatórios. Trata-se de um momento esperado e temido, mistura de ansiedade, receio e vontade de colocar todo seu conhecimento à prova - ainda que seja pouco. No estágio acontece um jogo amistoso entre dois times: você e seu medo. Para mim, o estágio era um compromisso de final de Copa do Mundo e ao pensar neles, senti-me obrigada a pensar em como a deficiência impactaria o paciente e como eu reagiria, caso isso "entrasse em campo". Embora tenhamos que "suspender" quem somos, olhar o paciente sob a lente profissional e fazer cara de paisagem mesmo que ouça o outro dizer que matou a vovózinha, minha pergunta era: devo "suspender" a deficiência? Como colocá-la em modo stand by? Era possível manter isso fora do processo terapêutico?

Penso que não. Na época acreditei (e acredito ainda hoje) que não poderia desfazer-me da deficiência como se usasse um decote indiscreto, um piercing no nariz, uma tatuagem gigantesca, um brinco extravagante ou uma maquiagem inspirada no Carnaval. Não há disfarces para uma perna renga, uma mão "malacabada" e um andar diferente, não é mesmo? E tudo bem que não haja! Assim que me formei e montei consultório, a questão era fazer a deficiência parte do meu trabalho. Jamais poderia (ou vou poder) tomar minha deficiência como foco, porque na posição de terapeuta, o que está em análise é sempre o conteúdo do outro, não o meu. O que devo perceber é que meus limites, aqueles da vida cotidiana, fazem a Karla-deficiente indissociável da Karla-psicóloga. Então, além de todo meu aparato técnico e intelectual disponível, eu mandei fazer móveis ergonomicamente testados por mim: mesa de altura satisfatória, gavetas fáceis de abrir e chavear, armário prático onde eu tivesse independência para pegar e guardar os materiais. Cuidei também para que a maçaneta da porta fosse fácil de manejar, que o tapete da sala fosse antiderrapante e que as poltronas fossem altinhas para que eu não precisasse fazer um passo de mestre-sala e porta-bandeira toda vez que tivesse que levantar. Garanti, assim, um ambiente acessível no setting terapêutico, para privilegiar o processo de escuta do outro e não o meu processo de enfrentamento de barreiras físicas. Tudo isso porque sei que as pessoas não procuram psicólogos para dizer que está tudo ótimo, procuram o cuidado. E será que uma pessoa deficiente que, teoricamente, inspira cuidados, pode cuidar do outro?

No último ano de faculdade, quando fiz o estágio em Psicologia Clínica, deparei-me com essa pergunta e, em seguida, com a resposta. Minha primeira paciente, que tinha dificuldades emocionais para sair de casa, um belo dia, sem que eu pudesse esperar, me disse: "Quando sinto medo de sair na porta, penso que você, com toda sua suposta dificuldade física, tá aqui estudando pra me ajudar e ajudar outras pessoas. Aí me animo a vir na terapia.". Acredito que tive a postura mais correta (e coerente) com a declaração da paciente: não me envaideci, tratei de trabalhar a correlação feita por ela entre uma dificuldade e a outra (a minha e a dela). Tempos depois, no início de 2010, quando fui contratada pela APAE, fui lidar de frente com essa questão. De repente eu era psicóloga numa instituição cujo objetivo era cuidar (inclusive) psicologicamente de seus alunos com deficiência e suas famílias. Tenho uma amiga que diz que não poderia exercer papel melhor: sou a mensagem subliminar ambulante de que é possível. Atender os pais dos alunos e ouvi-los dizer que passaram a ter mais esperança ao me verem trabalhando lá, não serviu para inflar meu ego porque não pretendo ser exemplo de nada e não podemos misturar as koisas, mas para reafirmar minha idéia de que ser psicóloga e deficiente pode servir como fato identificador do paciente e/ou ressignificador dos pré-conceitos que ele traz sobre o universo da deficiência e, de certa forma, ajudá-lo. Alguém tem alguma dúvida do quanto amo meu trabalho?

Beijo grande.

* Revisão e colaboração textual do professor Adriano Henrique Nuernberg.
** Para os cegos, a descrição: na foto da postagem há um sofá divã branco (móvel utilizado em consultórios de psicólogos).