segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O korpo com Ká

Conta a Mitologia grega que Procusto era aquele que convidava os viajantes para repousar no leito de sua pousada na estrada que ligava Mégara a Atenas. Mostrava-se gentil e hospitaleiro, fazendo seu convidado deitar-se, mas exigia o completo ajuste do sujeito ao tamanho exato de sua cama de ferro. Se a pessoa fosse maior que a cama amputava-lhe as pernas, se fosse menor era esticada até atingir o tamanho desejado. Esse horror só teve fim quando o herói Teseu fez a ele o mesmo que ele sempre fazia às suas vítimas: colocou-o na cama, mas um pouco para o lado, sobrando assim a cabeça e os pés que foram amputados pelo herói.

Percebo no mito de Procusto que ele, assim como nossa sociedade, só pode conceber a gentileza e "hospedagem" se a pessoa estiver dentro do padrão desejado (do tamanho da cama). Ter em sua presença um corpo maior ou menor era um problema para Procusto, o que lhe levava à eliminação do desvio**. Em geral, as pessoas só são aceitas às custas de torturas impostas por um padrão estético exigente. Na minha interpretação, os corpos menores que a cama que Procusto não tolerava são aqueles ditos "normais", fora apenas do padrão por ter pouco seio ou um nariz avantajado, por exemplo. De certa maneira, esses corpos*** ainda cabem na cama e há uma tentativa de encaixá-los através das cirurgias plásticas, das horas a fio numa academia de ginástica, dos tratamentos estéticos que prometem milagres, etc. O corpo deficiente não, ele nem cabe na cama, é maior, não há outra saída senão cortá-lo e limitá-lo à impossibilidade do convívio. Obviamente estou sendo um tanto quanto generalista. Sei que essa prática (embora me pareça arcaica) ainda acontece e me causa muita estranheza. Aqui em casa me fiz gente acreditando que as pessoas estavam ocupadas demais para ficarem reparando nas minhas canelas finas ou nas minhas mãos assimétricas. Quando era criança, lembro de ter tido, umas duas ou três vezes, um ensaio de receio quanto a alguma roupa, ao que papai ou mamãe responderam: "E daí? A voltinha da orelha é o mais difícil de ser feito e isso saiu direitinho!"... risos.

Essa minimização do culto ao corpo feita pelos meus pais, introjetou em mim um conceito de que realmente ser diferente era normal. Não estou, de forma alguma, desdenhando a estética - até porque sou uma mulher muito vaidosa. Mas entendo que não podemos ser escravos da aparência e da conformação aos padrões. Por que temos que adorar tanto a forma se o que mais importa não é aparente? Esse pensamento me levou a tomar alguns sustos depois de estar "velhusca". Aos 19 anos, tirei uma foto da minha mão ao lado da mão do meu ex-noivo para registrarmos a ocasião do compromisso. Foi ali que percebi que minha mão era diferente. Na época eu nem imaginava em comentar ou escrever qualquer koisa em relação a isso. Foi uma constatação e só. Mês passado, fazendo uma brincadeira com minha prima no jardim na casa da minha avó, tirei as fotos que estão nesse post. Agora sim, a proporção das reflexões que surgiram a partir daí foi gigantesca, com a possibilidade deliciosa de compartilhar aqui com você, karo leitor. Tive as cirurgias fotografadas e os pés vistos de outro ângulo. Achei tudo muito feio e lindo. Feio obviamente porque eu estava me olhando de fora e tenho mesmo linhas fora do padrão; e lindo pela significação que o corpo tem pra mim. Se não fossem minhas cicatrizes, eu estaria de pé? Não. São os pés tortos que me levam para o mundo, certo? Então eu amo como sou simplesmente porque tudo isso é meu.

Passei, então, a me perguntar se as pessoas pensam que eu invejo um corpo não-deficiente. Não, eu nunca desejei ter um corpo "normal". A deficiência é meu modo de vivenciar o mundo, não um detalhe. A deficiência apenas é. Aliás, estou pensando em breve fazer uma postagem sobre "termos cretinos", dentre os quais estão aquelas frases que só revelam o mal-estar que as pessoas sentem a essa condição: "Fulano nasceu com problema (deficiente).", "Depois que fulano ficou com esse problema (tornou-se deficiente)...". O fato de eu ser deficiente talvez seja um problema para as outras pessoas, mas para mim não é. Foi a deficiência que me trouxe até aqui e me imaginar não-deficiente seria imaginar alguém que nunca existiu, simplesmente porque eu seria outra pessoa. Você aí, dito "normal", já imaginou como reagiria caso tivesse nascido com deficiência? São fantasias inúteis, tanto quanto aquelas que poderiam me privar de ir à praia, de usar roupa curta, de conhecer pessoas, etc. Incomodando-me ou não, sei que as pessoas vão olhar, então eu nunca tive outra escolha senão assumir aquilo que sou. Quantos mais eu mostrar as canelas finas, as articulações congeladas e os remendos dos joelhos, mais as pessoas estarão familiarizadas, menos "ibope" darei à Procusto.

Não, que nada! Eu não sou a versão feminina de Teseu, o herói desse mito. Minhas condições de enfrentamento à deficiência é que são. E não devo isso a um dom divino, não sou um ser melhor ou abençoado. Não sou heroína. Apenas tive pais sensatos que construíram comigo as forças de Teseu.   

Megabeijo.

* Supervisão textual do professor Adriano Henrique Nuernberg.
** Sobre o "corpo desviante", sugiro a leitura dos textos da Lígia Assumpção Amaral.
*** Sobre o "corpo canônico", sugiro a leitura dos textos da Malu Fontes.

16 comentários:

  1. Que demais amiga. Por conta disso tudo que você é assim lindaa *-*

    Amo vc sempre ♥

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  2. Kaká, que koisa linda de se ler. Muitas dessas experiências vividas por vc eu as vivi também. E como é bom ver escrito o que me afligiu durante tantos anos, especialmente na minha adolecência. Kara amiga, mais uma vez parabéns por essa postagem.
    Beijos!!!

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  3. Karlitcha, chará! Obrigada, também amo vc.
    Bjos.

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  4. Caparroz, obrigada! Vê o quanto temos em comum? Que bom que podemos compartilhar essas koisas.

    Beijo.

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  5. Emocionada, muitas vezes também me sinto assim "fora do padrão"!!! Muito lindo o texto! Obrigada! Bjus

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  6. Ká, este é o seu texto que mais gostei até agora. Assim como algumas pessoas lá no Flizam, tenho vindo aqui para aprender com você. Um beijo.

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  7. Cybelle, vc é lindaaa! Te adoro, minha amiga!

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  8. Fábio, muitas pessoas também me mandaram o recado dizendo que esse é o melhor texto. Fico feliz que tenhas gostado. Eu também vou no teu blog pra aprender, tudo é troca.
    Beijo.

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  9. Ká, um de seus melhores textos... mas, sou fã de carteirinha, então, amo os outros também... !

    conheço bem Procusto... passei a vida fora dos padrões também, sempre mais "gordinha" do que os formatos impostos... sempre na contramão da estética... e, desculpem-me os que se incomodam de alguma forma, mas vivi sempre "na boa"....

    pessoas que sabem ver a perfeição da voltinha da orelha me fazem ter orgulho de ser gente...

    e tenho alguns deles por perto...

    obs : que fotografias lindas.....

    beijoKA !!!!
    especial....

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  10. Solange, minha flor. Quem disse que o diferente não pode ser belo? Vc é linda e poderosa!
    Te agradeço a visita e o comentário. Me motiva demais saber que uma grande esritora como vc tenha gostado do texto.

    obs: minha prima de 16 anos que tirou as fotos.

    Beijos, amadinha.

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  11. OBRIGADA!! SEM PALAVRAS! QUE BELO TEXTO.ME INCLUO, QDO MTAS VEZES ME PEGO CRIANDO FANTASIAS, P ME COLOCAR NA SITUAÇÃO DO
    OUTRO.OBRIGADA KARLA,PELO PRESENTE QUE CONSEGUES FAZER COM A JUNÇÃO DAS LETRAS.
    LINDAS FOTOS.
    obs:AMEI A COR DO ESMALTE.
    BEIJINHOS,KARINHOSOS.

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  12. Guisela, fofa! Que bom que gostastes do texto.
    Saudades da Família Sá!
    Beijos em todos, principalmente na Valentina.

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  13. oi, Karla
    Mninha amiga adorei seu texto, que poder de sintetizar nosso sentimento interior de ter artrogripose!!!!
    Vamos para o Encontro Internacional de Artrogripose? Já fiz minha inscrição!!!
    bjs e vamos nos falando

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    1. Isis, que bom que vc gostou!

      Vc vai? Que delícia!! Eu não sei se dá tempo de eu ir nesse ano, tenho que fazer o passaporte, pedir visto. Com quem vc vai?

      Beijos e me escreve.

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    2. Karla eu já tirei o passaporte, agora o visto vou correr atrás, eu vou com meu irmão. Veja se vc não consegue ir com alguém!!! Vai ser legal se conseguirmos ir juntas esse ano!!!

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  14. Acabei de mandar um email pra ti kk... como me identifikei contigo; seu blog é lindo!
    Esta Isis Ramos acima é Isis Maria de Almeida Ramos? como a procurei nessa net... preciso saber do carro dela... rs. Li sobre o prêmio q ganhou (se for a msm pessoa, né)
    bjo a todos
    Cida

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