terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Perguntas, frases e termos cretinos em relação à deficiência.

Ao longo dos meus 27 anos, acumulei (e vou continuar acumulando) "pérolas" que as pessoas dizem ou perguntam em relação à deficiência. Sempre levei com bom humor, tranquilidade e relevei as koisas mais absurdas/cômicas que ouvi. Nunca me senti agredida por acreditar que, em cem por cento dos casos, as pessoas disseram ou perguntaram por falta de conhecimento mesmo - não por maldade. O fato é que, como trabalho com a deficiência e essa também é a minha identidade, adotei uma postura mais política (ou seria politizada?) nos últimos tempos... o que, automaticamente, levou-me à irritação com o uso indiscriminado de termos inadequados ao mundo dos deficientes. Tenho absoluta certeza de que muitas (ou quase todas) pessoas com deficiência vão se identificar com o conteúdo desse texto, sejam elas surdas, cegas, cadeirantes, que nasceram já com a lataria amassada e/ou meio kapenga (tipo eu... ho ho ho). Talvez as pessoas sem deficiência também se identifiquem em algum momento por terem dito/perguntado alguma "pérola" dessas que vou citar e comentar abaixo.

Termos cretinos:
* Portador de deficiência. Recorri ao bom o velho dicionário para não ficar só na minha impressão (que estava correta). "Portar" significa carregar, conduzir ou trocar. Agora me diz, karo leitor, desde quando eu porto meu joelho remendado? Desde quando os cadeirantes podem simplesmente se desfazer da cadeira de rodas como se tirassem o sapato? É tudo uma koisa só, um estado de viver o mundo. Ou será que daqui a pouco teremos que tirar porte de deficiência?
* Portador de necessidades especiais. Gentem, quem não tem uma necessidade especial nessa vida? Eu tenho tantas! Tenho necessidade de água, chocolate, amendoins e livros. Para alguns, a necessidade especial é uma rampa, para outros é ter uma bolsa Victor Hugo, para outros é simplesmente ter o que comer. Termo muito relativo, não? 
* Especial/excepcional. Bom, vejo aí uma tentativa (ridícula) de supervalorizar a deficiência como forma de compensar "a desgraça do coitadinho do deficiente". Dispenso maiores explicações.

Então qual é a forma correta de se referir aos 'matrixianos'? Diga apenas "pessoa com deficiência" ou "deficiente" e esqueça todo o resto! Kombinado com Ká?

Frases e perguntas cretinas:
* Fulano tem problema (é deficiente). Quem tem problema é quem pensa isso. Aliás, o que é problema? E quem não tem problema? 
* Tadinho, ficou com problema (tornou-se deficiente). Ninguém é coitado, minha gente. Sem mais. 
* É mais fácil nascer com deficiência do que adquiri-la depois de certa idade. Sinceramente não acredito nisso. É muuuuito relativo. Ter perdido uma capacidade pode ser tão frustrante (ou não) quanto nunca tê-la tido. As dificuldades e as condições de enfrentamento à deficiência dependem de uma série de questões e variam de pessoa pra pessoa. Portanto, não sejamos generalistas!
* Com quantos caras "normais" você já se relacionou?. Isso eu ouvi de um cara (supostamente "normal") metido a intelectual (aham!), não faz muito tempo, com quem eu tive um affair (chique demais essa palavra... risos). O fato é que a pergunta dele me chamou a atenção por parecer que, como sou deficiente, só devo ter me relacionado com outros 'malacabados'. Que ingênuo! Logo virou desaffair... risos.
* Tal lugar é deficiente ou Polícia deficiente. Infelizmente, esse é um termo ainda bastante usado, inclusive na rede entre as próprias pessoas com deficiência na internet. Muitos se expressam desse modo para se referirem a um lugar precário ou um serviço que não funciona bem, o que acaba remetando à idéia de que ser deficiente significa ineficiência. Que mentira! O contrário de eficiente é ineficiente, certo? Então vamos parar de escrever "dEficiente" e querer riscar o "d" daquilo que somos.

Então como se irritar menos diante de tanta koisa absurda? Bem, apesar de não poder usar salto, eu não desço da sapatilha, retoco o batom e informo as pessoas. Na medida do possível, eu explico as koisas com muita educação, pois, fazendo a linha rebelde, só ganhamos a antipatia dos outros. Então todo cuidado é pouco para não criarmos o movimento inverso: com intenção de incluir e acabar segregando ainda mais. Acredito que informação é o grande remédio e a grande vacina contra todas as bobagens que ouvimos ou dizemos por aí. Bora lá disseminar as doses?

Beijos esperançosos.

- Na imagem do post, uma moça está sentada numa cadeira de rodas com os braços abertos de frente para o mar.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O korpo com Ká

Conta a Mitologia grega que Procusto era aquele que convidava os viajantes para repousar no leito de sua pousada na estrada que ligava Mégara a Atenas. Mostrava-se gentil e hospitaleiro, fazendo seu convidado deitar-se, mas exigia o completo ajuste do sujeito ao tamanho exato de sua cama de ferro. Se a pessoa fosse maior que a cama amputava-lhe as pernas, se fosse menor era esticada até atingir o tamanho desejado. Esse horror só teve fim quando o herói Teseu fez a ele o mesmo que ele sempre fazia às suas vítimas: colocou-o na cama, mas um pouco para o lado, sobrando assim a cabeça e os pés que foram amputados pelo herói.

Percebo no mito de Procusto que ele, assim como nossa sociedade, só pode conceber a gentileza e "hospedagem" se a pessoa estiver dentro do padrão desejado (do tamanho da cama). Ter em sua presença um corpo maior ou menor era um problema para Procusto, o que lhe levava à eliminação do desvio**. Em geral, as pessoas só são aceitas às custas de torturas impostas por um padrão estético exigente. Na minha interpretação, os corpos menores que a cama que Procusto não tolerava são aqueles ditos "normais", fora apenas do padrão por ter pouco seio ou um nariz avantajado, por exemplo. De certa maneira, esses corpos*** ainda cabem na cama e há uma tentativa de encaixá-los através das cirurgias plásticas, das horas a fio numa academia de ginástica, dos tratamentos estéticos que prometem milagres, etc. O corpo deficiente não, ele nem cabe na cama, é maior, não há outra saída senão cortá-lo e limitá-lo à impossibilidade do convívio. Obviamente estou sendo um tanto quanto generalista. Sei que essa prática (embora me pareça arcaica) ainda acontece e me causa muita estranheza. Aqui em casa me fiz gente acreditando que as pessoas estavam ocupadas demais para ficarem reparando nas minhas canelas finas ou nas minhas mãos assimétricas. Quando era criança, lembro de ter tido, umas duas ou três vezes, um ensaio de receio quanto a alguma roupa, ao que papai ou mamãe responderam: "E daí? A voltinha da orelha é o mais difícil de ser feito e isso saiu direitinho!"... risos.

Essa minimização do culto ao corpo feita pelos meus pais, introjetou em mim um conceito de que realmente ser diferente era normal. Não estou, de forma alguma, desdenhando a estética - até porque sou uma mulher muito vaidosa. Mas entendo que não podemos ser escravos da aparência e da conformação aos padrões. Por que temos que adorar tanto a forma se o que mais importa não é aparente? Esse pensamento me levou a tomar alguns sustos depois de estar "velhusca". Aos 19 anos, tirei uma foto da minha mão ao lado da mão do meu ex-noivo para registrarmos a ocasião do compromisso. Foi ali que percebi que minha mão era diferente. Na época eu nem imaginava em comentar ou escrever qualquer koisa em relação a isso. Foi uma constatação e só. Mês passado, fazendo uma brincadeira com minha prima no jardim na casa da minha avó, tirei as fotos que estão nesse post. Agora sim, a proporção das reflexões que surgiram a partir daí foi gigantesca, com a possibilidade deliciosa de compartilhar aqui com você, karo leitor. Tive as cirurgias fotografadas e os pés vistos de outro ângulo. Achei tudo muito feio e lindo. Feio obviamente porque eu estava me olhando de fora e tenho mesmo linhas fora do padrão; e lindo pela significação que o corpo tem pra mim. Se não fossem minhas cicatrizes, eu estaria de pé? Não. São os pés tortos que me levam para o mundo, certo? Então eu amo como sou simplesmente porque tudo isso é meu.

Passei, então, a me perguntar se as pessoas pensam que eu invejo um corpo não-deficiente. Não, eu nunca desejei ter um corpo "normal". A deficiência é meu modo de vivenciar o mundo, não um detalhe. A deficiência apenas é. Aliás, estou pensando em breve fazer uma postagem sobre "termos cretinos", dentre os quais estão aquelas frases que só revelam o mal-estar que as pessoas sentem a essa condição: "Fulano nasceu com problema (deficiente).", "Depois que fulano ficou com esse problema (tornou-se deficiente)...". O fato de eu ser deficiente talvez seja um problema para as outras pessoas, mas para mim não é. Foi a deficiência que me trouxe até aqui e me imaginar não-deficiente seria imaginar alguém que nunca existiu, simplesmente porque eu seria outra pessoa. Você aí, dito "normal", já imaginou como reagiria caso tivesse nascido com deficiência? São fantasias inúteis, tanto quanto aquelas que poderiam me privar de ir à praia, de usar roupa curta, de conhecer pessoas, etc. Incomodando-me ou não, sei que as pessoas vão olhar, então eu nunca tive outra escolha senão assumir aquilo que sou. Quantos mais eu mostrar as canelas finas, as articulações congeladas e os remendos dos joelhos, mais as pessoas estarão familiarizadas, menos "ibope" darei à Procusto.

Não, que nada! Eu não sou a versão feminina de Teseu, o herói desse mito. Minhas condições de enfrentamento à deficiência é que são. E não devo isso a um dom divino, não sou um ser melhor ou abençoado. Não sou heroína. Apenas tive pais sensatos que construíram comigo as forças de Teseu.   

Megabeijo.

* Supervisão textual do professor Adriano Henrique Nuernberg.
** Sobre o "corpo desviante", sugiro a leitura dos textos da Lígia Assumpção Amaral.
*** Sobre o "corpo canônico", sugiro a leitura dos textos da Malu Fontes.