sábado, 31 de dezembro de 2011

Aos meus Carlos!

Karo leitor internauta, há algum tempo venho passando por uma série de reflexões e questionamentos sobre o corpo. Faz uns dias, comecei a escrever um texto em que eu pudesse discutir esse tema por aqui. Meu desejo principal é falar do significado do corpo com deficiência. Do meu corpo. O korpo com Ká. Entretanto, julguei que seria importante falar antes da minha deficiência, da lesão em si, para depois poder falar das atribuições, sentidos e significados que ela me trouxe. Ao terminar esse texto, percebi que estava longo demais e, por isso, resolvi separá-lo em dois textos (mesmo que as koisas todas não se separem). Percebo também que, sem querer, segui a ordem histórica dos movimentos da pessoa com deficiência: num primeiro momento falando sobre a lesão; num segundo momento falando sobre a vivência da deficiência, como ela me constitui(u) como pessoa. Por se tratar de um relato sobre minhas convalescenças (como diria Lígia Amaral), esse post serve também como brinde aos 10 anos que estou andando sem órteses.

Depois de um tempo após a criação desse espaço reparei que eu não havia explicado nada sobre a deficiência no perfil do blog. Não foi à toa. Para mim, é tão óbvio ser o que sou, que não me atentei a explicar isso a você, leitor. Muitas pessoas, então, passaram a perguntar por e-mail qual é o tipo de deficiência, se sou cadeirante, etc. Vamos lá falar do meu korpo, então. A Artrogripose Múltipla Congênita (carinhosamente apelidada por AMC), como o próprio nome sugere, refere-se a um congelamento das articulações (cotovelos, joelhos, ombros, tornozelos) que ocorre no desenvolvimento fetal, o qual implicou na minha mobilidade reduzida.  Está aí a resposta: eu não sou cadeirante. Tenho mobilidade reduzida. Flexiono pouco os braços e as pernas, não subo degraus altos (escadas), não tiro/coloco as meias sozinha, não prendo o cabelo (só penteio), não sei pular e correr, não tenho um excelente equilíbrio corporal... provavelmente esqueci de citar alguma dificuldade, mas até que eu me viro bem. Sim, eu ando, escrevo, digito, uso talheres, dirijo, passo o shampoo, maquio-me, troco de roupa, mexo as orelhas, estalo a clavícula esquerda e levanto uma só sobrancelha... risos.

Eu, 1986
Fico imaginando como foi difícil para os meus pais, receberem a notícia de que tinham ganhado um bebê com deficiência ainda no início dos anos 80. Por tudo que já conhecem na leitura de post anteriores, sabem que se saíram muito bem! Mamãe sempre conta que me "esconderam" por uns três dias depois do meu nascimento. No terceiro dia, sob ameaça de um escândalo dela, levaram-me até o quarto onde ela se recuperava do parto. Sem que ninguém soubesse, nesse meio tempo, papai já havia me registrado com o nome dele. Ele, Carlos; eu, Karla. Aliás, eu sempre deixei mamãe constrangida nos consultórios médicos porque, sempre que iam preencher minha ficha eu dizia: "É Karla com Ká!"... risos. Essa mania rendeu o nome do blog. Voltando ao meu nascimento, quando me trouxeram para casa, papai ouviu meus avós conversando baixinho dizendo que eu "não vingaria" (hoje sou eu que levo vovó no médico, na padaria, na manicure, etc.). Depois de um tempo, meus pais observaram que meu desenvolvimento cognitivo era normal. Eu comecei a falar por volta dos 8 meses e, com 1 aninho, já contava até 10 por conta dos exercícios físicos que mamãe fazia e contava repetidamente (minha simpatia por números parou por aí... risos). Com 4 ou 5 anos, mamãe me alfabetizou em casa. Lembro até hoje que escrevíamos e desenhávamos com uma canetinha marrom. Ela desenhava um barquinho e escrevia embaixo B-A-R-C-O. Quando cheguei à escola, já sabia ler e escrever. Eu segurava a caneta de um jeito diferente do qual seguro hoje... muitas koisas foram se adaptando com o passar do tempo. Foi nessa época (dos 4 anos) que fiz as primeiras 4 cirurgias nos joelhos (tenho no currículo 3 internações e 10 cirurgias). Dessa fase de hospital eu não recordo de nada. Aos 6, fiz 2 cirurgias nos pés. Aí lembro bem do dia em que telefonaram do Hospital Infantil de Florianópolis avisando que eu seria operada em agosto de 1991. Parece que estou vendo os bancos de espera do hospital, todos pintados num tom holandês ("laranja mecânica") e a ala infantil cheia de margaridas feitas de cartolina vermelha e verde coladas no teto - ainda tenho uma delas guardada como recordação da minha estadia por lá. Não esqueci dessas flores porque, no dia em que operei os pés, chorei a noite inteira olhando para elas. No dia seguinte, descobriram que haviam deixado um dedinho do meu pé dobrado dentro do gesso. Para me agradar, no dia em que recebi alta, um dos residentes fez um balão com uma luva cirúrgica e eu fiquei chateada porque estourou antes de eu chegar em casa. Aqui fica um suspiro, pois eu gostaria de lembrar do nome de todos os profissionais que cuidaram de mim, tanto no hospital, quanto no Centro de Reabilitação que frequentei desde que nasci até uns 7 ou 8 anos de idade, mas não consigo lembrar de nenhum. Após essa fase, eu passei a fazer fisioterapia com o Isamir, aqui em Garopaba mesmo. Atualmente ele é meu colega de trabalho na APAE.

Hospital Infantil Joana de Gusmão
Lembro que era uma rua sem saída, uma ladeira, com uns 300m. No alto da rua está, até hoje, o Hospital Infantil e, logo mais abaixo, o Centro de Reabilitação. Na calçada, em frente ao prédio branco do Centro havia um trailler em formato de lanchonete (palavrinha mais antiga, hein?), cujo dono era conhecido por todos como Carlão. Um homem muito alto, barbudo, alegre e com uma pança levemente avantajada. Lembro que meus pais ficaram amigos dele pela frequência com que parávamos lá. Uns 15 anos depois que deixei de ir à Reabilitação, eu já morava em São Paulo e numa das minhas férias por aqui, decidi que precisava visitar o Carlão. Quando cheguei àquela rua, revisitei a minha história. Vi o Carlão com o cabelo e a barba brancos, a pança um pouco maior, o sorriso de sempre um pouco mais alegre naquela hora por ter me visto andando. Só pude chorar. Como agora, como todas as vezes que puxo esse arquivo da memória. [Pausa] Alguns meses depois que o visitei, Carlão faleceu.

O mais interessante é que, embora possa parecer sofrido para uma criança ter internações, cirurgias e passar mais tempo em fisioterapia do que brincando, correndo, andando de bicicleta, eu me lembro disso tudo com muita alegria. Porque eu estive inteira em todas essas lembranças. Eu brinquei de verdade quando pude e do jeito que pude. A minha infância não foi roubada pela deficiência. Fui criança feliz com deficiência. Até os 12 anos (mesmo com todas as intervenções médicas do Dr. Carlos), eu só andei com órtese (iguais as do Forest Gump). Era um sufoco. Colocava os aparelhos de manhã antes de ir pra escola. Tinha que usar meia de lã direto, pois as órteses de ferro machucavam e até, essa idade, eu só usei bota ortopédica (em seguida fui apresentada aos tênis). Quando chegava a noite, eu tirava os aparelhos para tomar banho e, sem eles, não andava mais. Foi aí que mamãe deu um basta. Tirou, por conta própria, a obrigação de usar as órteses. Passei a fazer execício com ela pela casa. Eu andava mal e pouco. Dava uns cinco passos e já estava com a língua arrastando no chão. Aos 16, conheci um médico de Porto Alegre (outro Dr. Carlos) que me operou e me colocou de pé. Inovou, prometeu e cumpriu. Mesmo contrariando meu médico catarinense (que disse que eu não andaria se fizesse essa cirurgia), eu topei operar em Porto Alegre. Papai deixou essa decisão por minha conta - como todas as outras. Não sei se foi porque não lembro das outras recuperações ou se porque não foram tão sofridas, mas a recuperação dessa última ida ao hospital foi a fase mais difícil que enfrentei. Além das dores e do incômodo de usar gesso por 106 dias, eu vivi esse tempo divida entre a possibilidade de andar e o desdenho do ortopedista que cuidou de mim desde que nasci. Valeu a pena! Valeu muito a pena! Quando tirei os gessos, eu estava andando. Obviamente, levou um tempo para que eu pudesse aprimorar o caminhar - como na vida, a gente aprimora sempre que permite. Continuo aprimorando.

Se, como diz Gonzaguinha, somos em corpo e alma o produto das lições diárias de outras tantas pessoas, em parte, sou o que se fez das mãos de afeto de meu pai Carlos, da precisão cirúrgica dos Drs. Carlos e das mãos confeiteiras de Carlão. Meu caros... meus Carlos. Dentre as pessoas que não estavam diretamente presentes nas minhas rotinas de internação, Carlão, foi o único nome que nunca esqueci. Carlão alimentava, não só meu corpo com suas coxinhas maravilhosas e aquele suco mais doce que rapadura, mas nossas almas com muita atenção e zelo. Em nome dele agradeço a todos os profissionais que cuidaram de mim, inclusive aos Doutores Carlos. Ao papai, o Carlos mais importante, o agradecimento eterno por ter me dado a vida e o nome: Karla com Ká.

Tim-tim!

Feliz 2012, karo leitor internauta!
Beijo grande.

* Supervisão e colaboração textual do professor Adriano Henrique Nuernberg.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Prece pra Iemanjá

Que Papai Noel, que nada! Na atual circunstância, me resta acreditar em Iemanjá!
Eu, como adoradora dos ares, dos aviões e dos paraquedas, venho publicamente, na maior cara-de-pau, pedir que a Rainha do Mar faça um milagre dos bons. Pois é, querida Iemanjá, infelizmente não nasci para o mar, então meu estômago não me ajudou a descobrir o nome e a origem do rapaz que só vi no embarque e no último dia de passeio no cruzeiro. Ou seja, não poderei dar as coordenadas - eu avisei que se tratava de um milagre. Peço, então, com todo karinho, para que seu radar seja infinitamente melhor do que o meu e dê um "jeitinho brasileiro" para que aquele moço bonito, alto, com pele de pêssego e com o sorriso mais branco que o casco no navio, entre nesse humilde blog e faça um kontato com Ká. Pense bem, Iemanjá... logo eu, que raramente me interesso, que venho atravessando meses de muita exigência e restrição ao sexo oposto, fui logo me encantar à primeira vista - isso pode, sem dúvida, ser considerado também um milagre... risos. Caso meu pedido seja atendido, depositarei flores na praia mais próxima!  

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

(re)Konhecimento aí vou eu!

Recontar a própria história, revisitar o passado, narrar os elementos fundamentais da vida profissional e acadêmica que esse texto exige é uma tarefa árdua. Entretanto, me fascina poder dar forma em palavras os momentos que construíram minha carreira como psicóloga, até então. Confesso que, o próprio exercício de relembrar e escrever, é por si só uma fantástica possibilidade de ressignificação do vivido, cujo objetivo demarca minha postura diante do mundo enquanto sujeito e, consequentemente, enquanto psicóloga. Embora não possua uma vasta experiência profissional, rekonheço que me encontro sob novas configurações cotidianamente, justamente por acreditar que estou na condição de ser humano e, portanto, “sujeita” a todas as conjecturas que me cercam.

Órtese
Lembro do meu primeiro dia de aula na pré-escola. Eu usava um aparelho ortopédico de ferro nas pernas e botas ortopédicas, como na foto - aliás, eu só calcei sapatos comuns aos 12 anos quando, por conta própria, minha mãe resolveu tirar os aparelhos e passei a aprender a andar sem eles até as cirurgias, aos 16 (em breve farei uma postagem sobre isso). Vestia, naquela ocasião da escola, a camiseta branca de manga curta e a bermudinha azul, uniforme tradcional dos colégios estaduais na minha época. Tenho certeza de que minha mãe expôs minha deficiência de propósito. Na verdade era um hábito; ela jamais deixou de me levar em algum lugar ou de vestir roupa curta em mim por isso. Então meus colegas da escola ficaram curiosíssimos. Eles queriam chegar perto, tocar, conversar e eu achei, no mínimo, engraçado. Lá pelas tantas, uma das crianças perguntou se eu estava "daquele jeito" por ter sofrido acidente de carro. Cheguei em casa rindo muito e contando o episódio aos meus pais. Fiquei pensando de onde o colega tinha tirado aquilo. A leveza com que eu e meus pais encaramos essa situação determinou o meu enfrentamento diante de todas as outras situações parecidas com essa. Uma vez, saí com meu pai e uma senhorinha se aproximou e perguntou a ele: "Ela fala?", sem pestanejar eu respondi: "Acho que sim!". Meu pai não sabia como sair daquela saia justíssima, colocada à vácuo, mas depois a gente riu demais. Eu já disse isso aqui, mas vou repetir: não tinha motivo para me incomodar com aquela pergunta, assim como não tenho problema para responder pergunta nenhuma a respeito da deficiência até hoje (nem nunca vou ter), porque é normal que as pessoas queiram saber e quanto mais respondermos e explicarmos, menos daremos chance ao preconceito, aos mitos, à ignorância.


Faculdade rima com saudade!

Bom, durante toda a minha vida escolar e universitária as koisas funcionaram nessa linha: estive rodeada de muitos amigos, as pessoas sempre se prontificaram a me ajudar e jamais deixei de me sentir pertencente ao grupo. Tenho plena convicção de que esse processo aconteceu por uma via de mão dupla, uma troca: a minha postura influenciou a postura das pessoas comigo e vice-versa. Logo, ir para a escola foi sempre uma alegria, um momento bom. Foi nos espaços da escola pública que eu percebi a minha paixão pelas pessoas. Não nasci para a exatidão, para os números ou tabelas periódicas... o que eu amo é a complexidade da humanização. Ir à escola me rendeu apenas boas emoções, o que fez com que estudar se tornasse uma das koisas que mais gosto de fazer. Portanto, me fascina a idéia de poder seguir a carreira acadêmica, a apreensão do conhecimento e a possibilidade de disseminá-lo. 

Em 2008, terminei a faculdade em Santos/SP e o objetivo era fazer pós-graduação. Logo em seguida eu resolvi voltar para Santa Catarina. De lá pra cá, eu tenho trabalhado bastante (cada vez mais, felizmente). Hoje trabalho na APAE e todo dia é uma reafirmação de que faço o que amo. No ano passado, surgiu a idéia de fazer o Mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mas tudo ficou apenas no plano das idéias, pois o dia da prova coincidiu com a data de um curso sobre Autismo que eu já havia pago para ir fazer em São Paulo. Não era hora do mestrado - foi nesse curso em Sampa que eu conheci minha amiga querida Gisele Nunes. Alguns meses depois, houve a oportunidade de fazer especialização em Educação Especial aqui em Garopaba. Na hora topei! Era a chance que eu precisava para continuar estudando com a temática coerente com o meus anseios e com o meu trabalho. Atualmente, só me resta terminar a monografia para pegar o "canudo" e ganhar o título de especialista em Educação Especial.

Durante todo esse ano, mesmo fazendo a pós, tive a vontade fixa em passar no Mestrado da UFSC. Com bastante antecedência, li todo o edital do ano passado para me inteirar de como funcionava o processo. Preparei os documentos, fiz a prova de proficiência em língua estrangeira (inglês), organizei meu currículo lattes e pensei no pré-projeto (esse último não fiz, achei melhor esperar para ver se passaria na prova específica). Dia 7 de outubro, logo depois do meu aniversário, fui até à Universidade fazer a prova específica na área 2, cuja linha de estudo são as "Práticas Sociais e Constituição do Sujeito", que é exatamente o que quero estudar tendo como objeto de estudo a deficiência. No ato da incrição para o Mestrado, você já deve indicar um orientador para o seu projeto, caso chegue nessa etapa. Dei uma olhada no currículo dos professores e achei que o perfil do Prof. Dr. Adriano Henrique Nuernberg era o que tinha mais a ver comigo por ele ser um pesquisador desse tema. Eu não sabia, mas o professor Adriano foi quem aplicou a prova naquele dia. Saí da prova absolutamente certa de que não passaria. Algumas pessoas julgam isso como "estratégia para evitar a ansiedade", mas para mim é puro realismo. Eu sou sincera comigo mesma, não haveria motivos para depositar expectativas em algo que eu estava ciente de que não aconteceria. Aliás, caro leitor internauta, você evita uma pá de sofrimento desnecessário quando aprende a analisar até onde vão suas capacidades. E ali, eu sabia que não havia tido subsídio teórico suficiente para ser mestranda da UFSC - por enquanto.

Professor Adriano Nuernberg e eu.
Dia 24 de outubro saiu o resultado, aquele que eu já esperava: não havia passado. Apesar de desejar muito estar naquela lista, não me frustrei, sinceramente. Acredito que as koisas têm uma hora certa para acontecer e um sentido todo particular que cada um dá. E aquela desaprovação significava, para mim, que algo melhor viria. E veio. No dia seguinte, pela manhã, abri minha caixa de e-mail e lá estava uma mensagem do professor Adriano. Isso mesmo, aquele que eu havia escolhido como possível orientador, que aplicou a prova e que eu não fazia idéia do motivo daquela mensagem... risos. Para minha surpresa, o professor Adriano já me conhecia. De onde? Daqui, do blog. Acredita? Eu custei para acreditar! Ele me reconheceu quando fui prestar a prova de mestrado e, como ele viu que não passei, me mandou um e-mail me convidando para fazermos estudos como uma forma de preparação e incentivo para a prova do ano que vem. Marcamos uma reunião na UFSC dois dias depois. O que o professor tinha para me dizer corrobora com toda a visão e vivência de deficiência que tenho: de que somos pessoas antes de sermos deficientes. O convite foi melhor do que se eu tivesse passado no teste, pois não se tratava de uma avaliação de prova, mas um rekonhecimento do meu trabalho, de quem sou. Ouvir uma pessoa com esse gabarito dizer que gosta dos meus textos e da maneira como me posiciono foi um dos melhores presentes que a vida já me deu. Pode parecer trivial, mas só eu sei do trajeto até aqui. Meu pai, que me acompanhou no encontro com o professor Adriano, chorou copiosamente ao ouvi-lo dizer tudo aquilo. Quando eu sempre conquisto alguma koisa, papai diz: "Um pequeno passo pra Humanidade; um gigantesco passo pra você.". Simples assim! É outubro, o meu mês, me trazendo sempre boas notícias!

(re)Konhecimento aí vou eu!

Deixo aqui meu imenso agradecimento ao professor Adriano Henrique Nuernberg, que tem se mostrado um ser humano extraordinário, além de muito competente no que faz. Professor, não medirei esforços para corresponder a chance que você está me dando. Que possamos ampliar e defender os estudos da deficiência no Brasil. Muitíssimo obrigada!

Beijos a todos que sempre torcem por mim.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Makiagem com Ká?

Olá, caro leitor internauta!

Hoje vim falar sobre minha paixão por maquiagem. Desde muito cedo sou apreciadora dos cosméticos feitos para embelezar ainda mais, nós, mulheres. Costumo estar maquiada na maior parte do tempo, cada estilo condizente à ocasião, óbvio. Se vou para uma festa gosto de arrojar sem parecer muito "carregado", se vou sair pra jantar uso algo mais "leve", se vou para o trabalho uso algo mais discreto - afinal, não posso estar mais chamativa do que minha competência exige, ou seja, o paciente tem que prestar atenção no que vou dizer (ou no que ele mesmo vai dizer), e não no meu batom, no meu brinco, na minha roupa, etc. E, se vou ao supermercado, pelo menos um rímel e um blushzinho tem que ter, não é mesmo? De uns tempos pra cá, tenho investido mais nos produtos de maquiagem. Sempre que posso compro algum item novo ou reponho um que acabou. Ô vício!

Gabriela, minha modelo, já pronta.

O mais engraçado é ver como pessoas custam a acreditar que sou eu que faço minhas  maquiagens.  Aliás, quase todo final de semana eu faço maquiagem nas minhas primas adolescentes para as festas de 15 anos... E olhe, tem gente pra caramba fazendo 15 anos... tô ficando véia!... risos. Posteriormente à "descrença" do primeiro momento, as pessoas também sempre me perguntam se fiz algum curso e não, não fiz curso nenhum, caro leitor internauta. No máximo, o meu gosto por maquiagem me leva para blogs a respeito desse assunto - inclusive aprendi bastante com minha amiga e xará Karla Oliveira que faz maquiagem profissionalmente. Outra koisa que causa estranhamento, desconfiança nas pessoas é o fato de eu mesma fazer minhas sobrancelhas - diga-se de passagem, não só as minhas, mas também faço as da minha mãe, as das minhas amigas, das colegas de trabalho, etc... risos.

Acredito que tamanha surpresa se dê pelo formato assimétrico e incomum das minhas mãos. Eu não me incomodo com isso, de verdade. Quando vemos uma pessoa, não sabemos dizer, ao certo, do que ela é capaz apenas baseados na aparência. Isso também acontece com os "matrixianos", e pior: as pessoas tendem a subestimar as capacidades até perceber que podemos. Constato tudo isso com muita tranquilidade porque acho que é um processo comum e natural - não é "privilégio" só dos deficientes. Tendemos a ter receio do desconhecido, daquilo que não nos parece familiar. Portanto, a estranheza não me aflige. Tento me colocar fora desse corpo e acho que também duvidaria ou teria muita curiosidade, num primeiro momento. Para citar um exemplo, outro dia vi na TV uma moça americana sem os dois braços que dizia pilotar um avião de pequeno porte com os pés. Confesso que, de início, eu duvidei, mas depois ela decolou levando a Adriane Galisteu para dar uma "voltinha". Aí concluí que, além de deficiente e psicóloga, tínhamos em comum a mesma paixão por voar... risos. Achei sensacional! Eu também precisei ver para crer. E foi diante de tudo isso que resolvi fazer um vídeo (clique aqui para assistir) mostrando que somos todos capazes. O primeiro passo é querer. Se você realmente quer (qualquer koisa), metade do trajeto até seu objetivo já foi alcançado. Quando me interessei por maquiagem, eu quis MESMO e deixei que esse "gostar" me levasse para o "saber fazer". Portanto, mulherada, mãos à obra, digo, aos pincéis. Espero que gostem do vídeo. Agradeço à Gabriela Defreyn, minha prima, que serviu como modelo e que editou o vídeo. A trilha sonora é "Moves like Jagger" do Maroon 5 e segue abaixo a lista de produtos usados nessa maquiagem:

Pele:
Corretivo Maybelline 20 light.
Base Maybelline Dream Liquid - beige natural 2.5
Pó Maybelline Mineral Power - medium beige 2.0
Blush Natura - rosa

Olhos:
Conjunto de sombras Revlon Color Play - cores 2, 3 e 4
Sombra Color Design - cor guest
Lápis Natura - preto
Lápis L´Oreal Double Extend - branco
Rímel Maybelline The Colossal Volum' Express

Boca:
Batom Natura - Rosa ritmo

Beijo, beijo, beijo com gloss.

domingo, 30 de outubro de 2011

II Fórum de Acessibilidade de Garopaba

Boa noite, caro leitor internauta!

Saudades de escrever aqui. Outubro, meu mês, se encerrando e deixando ótimas lembranças e notícias. Contarei aos poucos. Vamos lá!

Acredito que já comentei por aqui que sou presidente da Comissão de Acessibilidade de Garopaba desde o ano passado, certo? Em outubro de 2010, fui convidada pela Secretaria de Turismo a participar do I Fórum de Acessibilidade através de uma palestra contando um pouco da minha história, dos desafios que encontro cotidianamente (principalmente nas viagens) e sobre o blog. De lá pra cá passei a dedicar mais tempo e a criar mais espaços para esse tema - tanto aqui, como no Facebook. Outro evento importante dessa comissão, nesse ano, foi o "I Workshop de Acessibilidade: Inclusão no Mercado de Trabalho", que eu e a Andréia Valdira de Abreu (minha amiga, prima e psicóloga) oferecemos aos empresários da cidade, em maio. Nessa ocasião, fechamos parceria com o Wilson Restaurante e a Jr. Adamver (que fabrica os óculos da Mormaii) - ambos ofereceram uma vaga para pessoas com deficiência. No momento, estou acompanhando a contratação de um moço com surdez na fábrica da Mormaii.

Pois bem, na última segunda-feira, dia 24, realizamos o II Fórum de Acessibilidade. Em 2011, fiquei responsável pela organização do evento. Fiz inúmeras reuniões, discutimos a programação, convidei os palestrantes, encaminhei todo o material de divulgação para a gráfica, entreguei os convites... ufa, deu trabalho! Mas o resultado foi positivo. Saiu tudo conforme o esperado, exceto pela pouca participação da comunidade. Eu sei, caro leitor internauta, sei que é bem mais fácil e cômodo ficar por aí reclamando de tudo e atribuindo as responsabilidades ao Estado, mas eu não admito ficar nessa posição de estagnação. Somos todos agentes e transformadores do nosso meio... basta querermos. Costumo pensar que o que importa é sensibilizar, tocar de verdade quem presenciou. O que me interessa é poder transformar qualquer koisa em quem participa de eventos como esse, para depois transformarmos as calçadas, os banheiros, os meios de comunicação, as práticas, etc. Portanto, na minha visão, a acessibilidade é um movimento de dentro para fora.

Começamos os trabalhos com a palestra sobre a "Inclusão no Mercado de Trabalho", exposta pela Andréia, que "enxugou" todo o nosso material do workshop. Posteriormente, tivemos a videoconferência com o meu amigo querido de Belo Horizonte, Alessandro Fernandes (o Sam) do Blog do Cadeirante, falando sobre a "A Pessoa com Deficiência e a Mobilidade Urbana". Depois, a Rosi Lima, psicopedagoga e responsável pela Educação Especial no município, discorreu sobre os desafios da "Inclusão Escolar". Aliás, aqui faço uma observação: o ensino regular municipal conta com 28 alunos incluídos e, desses, 22 são alunos da APAE, cujos professores contam com nossa assessoria semanalmente. Muita gente nem sabe, mas vem sendo desenvolvido um trabalho efetivo nessa área aqui em Garopaba. E, por fim, o engenheiro civil da prefeitura, João Manoel, apresentou dois esboços de projetos: Calçada Para Todos, com a padronização das calçadas da cidade, em formato de cartilha; e Esquina Referência, objetivando tornar acessível a esquina de maior fluxo na avenida principal de Garopaba. 

Durante a exposição dos temas, surgiram diversas sugestões, as quais me comprometi a redigir em formato de carta ao Sr. Prefeito. Agradeço imensamente às pessoas presentes, aos palestrantes, à Secretaria de Educação, de Turismo e de Planejamento, à gráfica ImagemDaqui, à imprensa via rádio, às pessoas que me ajudaram mais diretamente: Edenisi Maria e Gabriela Defreyn e a todos que, de alguma forma, lutam pelos direitos da pessoa com deficiência. Meu trabalho é voluntário, mas, sem dúvida, eu recebo muito mais do que dôo.

Superbeijo.

sábado, 1 de outubro de 2011

Sapatos: a saga.

Bom dia, caro leitor internauta!

Hoje vim falar de uma necessidade que tira meu sono: comprar sapato. Provavelmente é um problema pra maioria dos 'matriaxianos', em especial, pras mulheres que possuem alguma deficiência física e que dependem a anatomia confortável de um calçado. Acredito que as mulheres cadeirantes não sofram tanto com isso, pois o sapato serve mais de acessório decorativo do que um utilitário. Que beleza! Por muitos anos, só usei botas ortopédicas por conta das órteses que me possibilitaram andar até a adolescência. Depois dos 16 (que fiz as últimas 4 cirurgias), pude caminhar normalmente e com sapato comum. Não faz muito tempo, eu consegui usar uma sapatilha, além do tradicional tênis e das botas (sem salto). A grande questão é conseguir achar uma sapatilha que não "vire" o pé, que seja do meu tamanho (33/34) e que não tenha a cara da Hello Kitty.

Das vezes que encontrei esse calçado, foi da linha Dakota Confort, com elástico. Custou R$39,90, no ano passado. A sola é fantástica, não escorrega e firma bem o pé. O problema é encontrá-la. Raramente as lojas por aqui recebem esse modelo e, quando recebem, é em pouca quantidade (ou nunca tem no meu número). Nas andanças por um calçado com elástico e com design para adulto, me deparei noutro dia com a loja do Empório Naka, no piso 3 do Shopping Iguatemi, em Florianópolis. É uma marca própria e, segundo a moça que me atendeu na loja, toda coleção traz um modelo anatômico, com elástico, tipo "confort". Que boa notícia!! Foi lá que comprei a sapatilha da foto e prometi pras meninas de lá que postaria aqui. Custou R$ 129,90. Fazendo uma pesquisa na internet, constatei que essa marca realmente sempre disponibiliza sapatinhos desse tipo. Que bom seria se mais empresas pensassem nos pés que não pode usar qualquer calçado. Konforto também pode ser com Ká! #ficaadica

Emporio Naka
http://www.emporionaka.com.br 

Superbeijo.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Amigo virtual ou real? Amigo!

Eu e Sam. 13 de julho de 2011.
Uma das melhores koisas que esse blog me trouxe foi a possibilidade de conhecer pessoas. Ano passado, eu encontrei na internet o Blog do Cadeirante, um espaço dedicado a contar as experiências do mineiro Alessandro Fernandes, o famoso Sam. Lembro-me que lia os textos dele com muito entusiasmo porque, além de informativo, completo, o Sam escreve com bastante fluidez e bom humor. Sabe aquela escrita que te envolve e, de repente, você acha que já conhece aquela pessoa há muito tempo? Pois é, era assim que eu sentia e, mesmo eu não tendo paraplegia ou não sendo cadeirante como o Sam (sou só uma kapenga andante), eu passei a me identificar muito e a comentar as postagens dele. O blog é referência para deficientes do país inteiro, inclusive, o Sam já deu entrevista na televisão e em revistas. Depois de um tempo, passamos a trocar e-mails como dois amigos mesmo e, até meu irmão de 11 anos passou a acompanhar o blog, fazia as contas pra ver quantas visitas o blog recebia em tantos dias... hahahah... Também não vou esquecer do dia em que fui dar entrevista numa rádio e ele mandou um recado para a produção, pois estava me ouvindo pela internet. Muito legal!

Em julho, fui surpreendida com um recado do Sam dizendo que viria a Florianópolis a trabalho. Marcamos de sairmos para jantar e lá começou minha saga em achar um bar/restaurante com plena acessibilidade, pois seria extremamente incoerente e constrangedor levá-lo num lugar qualquer e termos nos deparado com degraus, banheiro inacessível, etc. Então eu procurei na internet uma lista de bares e restaurantes de Floripa e liguei para, praticamente, todos os bares... pode acreditar! O mais engraçado é que, ou a pessoa dizia que não tinha acessibilidade ou dizia que tinha, mas questionando vinha sempre uma resposta tipo: "Rampas temos, banheiro não.". Acessibilidade 'meia-boca' não é acessibilidade, minha gente. O cara não pode 'quase entar' no bar ou 'quase ir ao banheiro', né não? Bom, quase desistindo e me conformando com a idéia de ir ao McDonald´s com o Sam, eu achei o tal Benvenuto Bar, um lugar bacanérrimo. O bar dispunha de calçada com guia rebaixada, piso tátil, rampa na entrada e banheiro acessível... que sonho! Ah, e a comida era muito boa também. 

Mas antes de chegarmos no bar, aconteceu uma koisa tri legal. Vou explicar: o Sam é mineiro, mas fazia Mestrado em Floripa, na Universidade Federal de Santa Catarina. Numa das suas férias, ele foi pra Minas e acabou sofrendo o acidente de moto que o deixou paraplégico. Então, desde 2006, o Sam não voltava a Floripa. Andando pela cidade, foi tocante vê-lo reviver a cidade. O meu primo Rafael,  que estava dirigindo, o levou dentro do campus da universidade e sentimos uma forte emoção ao testemunhar o Sam revisitando aquele lugar, os espaços por onde costumava passar, mas dessa vez sob outro olhar: o olhar de uma pessoa que adquiriu uma limitação física, mas que não deixou de viver bem. Tô errada, Sam? Então quando lembrava de onde andava de bike, ele dizia: "Olha, aqui tem rampa, piso tátil...". Para mim, o passeio foi agradabilíssimo e conhecer esse amigo foi a constatação de que tudo tem um propósito, de que a amizade e o carinho pelas pessoas independem da latitude e da longitude das nossas casas. Admiro e quero muito bem essa pessoa fantástica que é o Sam, meu ícone, exemplo de superação. Espero que em breve eu possa visitá-lo em Belo Horizonte e que ele traga logo a Gi (a esposa) pra eu conhecer, como combinamos. Adorei ter te conhecido, my friend! E obrigada pela visita!!

Benvenuto Bar
Av. Madre Benvenuta, 1248 - Santa Mônica - Florianópolis/SC
Telefone: 48 3236-0633
Site: http://www.benvenutobar.com.br/

Superbeijo.

domingo, 11 de setembro de 2011

Hotel Ibis (Congonhas) - São Paulo/SP


Vista do Hotel Ibis na passarela do Aeroporto de Congonhas
Bom, caro leitor internauta, hoje vim dar mais uma dica de acessibilidade: Hotel Ibis (Congonhas), em São Paulo. Na primeira vez que me hospedei no Ibis (em abril desse ano), não fiquei num quarto adaptado. Apesar de o hotel dispor de 4 quartos acessíveis, na época estava acontecendo a feira Reatech, então deduzi que todos estariam ocupados e, além disso, a acessibilidade em banheiros para mim é dispensável - ou seja, com certeza haveria quem precisasse mais que eu. Dito e feito. Já nas férias de julho, eu pedi um quarto adaptado para matar a curiosidade e postar aqui para você. Contei com a companhia e dotes fotográficos da minha amiga linda (e paulista) Gisele Nunes. 

Como você pode ver nas fotos, há barras próximo ao vaso sanitário e na pia. No quarto comum, a pia é uma bancada de mármore, bem diferente dessa. O espelho é inclinado para que um cadeirante possa espelhar-se. O chuveiro também é adaptado e há duas opções: ou você usa um banco que é chumbado na parede (e que se abre) ou você usa uma cadeira de banho que fica disponível no quarto. Não há box ou degrau próximo ao chuveiro, apenas uma leve inclinação para que não haja o acúmulo de água. O piso do banheiro é antiderrapante em ambos os quartos (adaptado ou não). 

E eu, curiosa que sou, resolvi tomar banho na tal cadeira de banho que nada mais é do que uma cadeira de rodinhas (mesmo!) com uma tampa de vaso. Aqui faço uma pergunta, como a pessoa toma banho se estiver sozinha? A rodinha da cadeira de banho é muito pequena, não dá pra manejá-la. Que tal amarrar um lençol e assoprar até chegar no banheiro? Seria um tipo de "cadeira de banho à vela". Gente, fiquei com muito medo de tomar banho naquela geringonça e ainda tive que contar com a gentileza da Gisele. Aliás, quem é cadeirante, por favor, tiraa essa dúvida minha: a cadeira é realmente muito insegura ou eu é que não estou acostumada mesmo? No fim do banho, valeu a pena a experiência e as risadas que eu e a Gi demos tentando usar a acessibilidade adequadamente.

A circulação no quarto é bem confortável, inclusive para um cadeirante... uma grande escrivaninha fica próxima à janela, o frigobar fica numa altura razoável e a televisão também. Não há tapetes, o que facilita se a pessoa estiver com a cadeira. Quanto ao hotel e ao quarto adaptado, tenho apenas duas observações: 1. todos os quartos adaptados são no final do corredor e isso é muito, mas muito longe do elevador. Em caso de emergência, já era pros 'matrixianos' e 2. tem um carpete bem grosso que reveste os corredores, o que atrapalha a locomoção de um cadeirante. No resto, o Hotel Ibis é uma ótima opção. Não há degraus no hotel, os serviços são ótimos e a comida é maravilhosa. Além disso, essa unidade fica ali do ladinho do aeroporto de Congonhas, há 100 metros. Ah, e o melhor: o preço também é acessível. Caso queira ganhar um descontão, é só fazer a reserva no site com, no mínimo, 20 dias de antecedência.

Hotel Ibis (Congonhas)
R. Baronesa de Bela Vista, 801 - Vila Congonhas
CEP: 04612-002 São Paulo/SP
Site: http://www.accorhotels.com/pt/hotel-3718-ibis-sao-paulo-congonhas/index.shtml

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Eu sonho alto, literalmente!

- Mãe, o que você acha de eu saltar de paraquedas?
- Uma loucura!
- Mas mãe, olha só: o Fabinho Fernandes lá do Rio de Janeiro é tetraplégico e saltou so-zi-nho!
- Mas o Fabinho é doido!
Olhei pra minha mãe com cara de "você não vai me convencer" e ela entendeu o recado. Me falou
- Se você for saltar, não me conte nada antes. Não me fala como, onde, quando e com quem vai. Oh, yeah... como sou boa filha, resolvi acatar o pedido da minha mãe. Na verdade, aquilo era um aviso meu, pois há tempos sou eu que decido o que fazer da minha vida. Além do mais, vou até o fim quando quero alguma koisa e mamãe sabe disso. Pensando bem, foi ela e papai que me ensinaram a ser assim: "se você quer, você consegue. Só depende de ti". É piegas, mas faz todo sentido. Afinal, a vida é uma pieguice danada, mas é maravilhosa! Pois bem, planejei tudo com uns 40 dias de antecedência. Resolvi que tudo aconteceria durante minha semana de férias de julho. Como sempre vou pra Santos/SP, decidi que faria mesmo no lugar onde sempre sonhei: em Boituva, interior de SP. Lá está o maior centro de paraquedismo da América Latina e se eu fosse morrer, que fosse em grande estilo, então. Brincadeiraaa! Hahahaha... Reservei hotel, agendei o salto, combinei com meus amigos, comprei as passagens e fui. Desci em São Paulo no sábado, dia 23 de julho, passei a noite num hotel com a companhia da minha amiga linda Gisele. Mal dormi, eu estava ansiosa e com dor na consciência de estar escondendo dos meus pais tais planos, mas deu tudo certo... depois meus pais entenderam que foi por uma boa causa. Logo amanheceu e meu amigo Mauricio foi me buscar, no meio do caminho pegamos a Vivian Carla (também minha amiga que saltaria) e partirmos rumo à Boituva. 

Vi a porta daquele pequeno avião abrir e uma corrente de ar muito forte bateu no meu rosto. À minha frente só o horizonte. Acima o céu azul e um sol radiante. O dia estava lindo, parece que tinha amanhecido daquele jeito pra mim. Quatro mil metros abaixo, vi o chão como uma grande pintura verde. Um calafrio de vontade imensa de me lançar no vazio me tomou. Era hora de ultrapassar qualquer limite que meu corpo poderia ter experimentado até então. E o que significa "limite" pra alguém que nunca correu, pulou ou subiu escadas, mas que agora virara pássaro? Era hora de extravasar todas as mágoas, as angústias, as alegrias. Eu queria exorcisar de vez todo e qualquer sentimento impuro como num grande ritual de passagem; queria provar a mim mesma que tudo é possível quando se sonha... mais que isso: quando você se dedica em realizar o sonho. Eu não tive medo. Medo de quê e pra quê? Se você parar pra pensar em perigo, você não nasce, nem vive. Quer perigo maior do que estarmos alheios a nós mesmos? E também não lembrei das instruções de salto. Sinceramente, naquela hora eu não pensei em nada. Experimentei algo novo e fantástico. Descobri que minha alma não cabe em mim, que sou maior do que minha altura física.

Foram 47 segundos intermináveis com aquele flash do filme da minha vida rodando na cabeça. Depois foram 4 ou 5 minutos com o paraquedas aberto. Finalmente, pude tirar os óculos de proteção e eu só queria contemplar tamanha liberdade. Só a minha voz no espaço e nada pra me segurar. Eu estava ali por minha conta e risco e devia esse grande passo apenas a mim mesma. Em todo detalhe, momento bom ou num sorriso que acontece, eu penso na mesma koisa: como queria poder saltar do avião de novo... porque é essa a sensação de felicidade que ficou em mim. Todas as pessoas deveriam fazer isso, pelo menos uma vez. Caro leitor internauta, lembre-se bem de certas koisas: não importa em que condição (física, social, financeira, emocional) você se encontra, ninguém tem o direito de menosprezar seu sonho e de te impedir de seguir adiante. Somos seres livres e devemos pautar nossas relações (todas) com o mundo apenas na verdade e no prazer de "estar com". Quantas vezes temos vontade de nos lançarmos nos abismos, nas incertezas, no inesperado e desconhecido e não fazemos? Ninguém tem o direito de dizer que você não é capaz, só você determina até onde vai sua capacidade. E esse corpo de carne e osso? Só serve de veículo, o que realmente faz diferença é muito sutil e invisível aos olhos. Absolutamente tudo é efêmero, mas possível! Acredite! Porque a gente é sim do tamanho dos nossos sonhos. E eu sonho alto, literalmente.

Quero deixar meu agradecimento ao cameraman Xandy, ao meu instrutor Fábio Pombo e a toda equipe do Paraquedismo Boituva: Viviane, Julie, Rose... Valeu pelo profissionalismo, alegria e carinho com que me trataram!! Não consegui postar aqui, mas segue o link do meu vídeo no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=JGfmGN9P1ks.

Mega beijo aos meus amigos que se angustiaram, mas torceram muito por mim... além, claro, de deixar um beijão ao Mauricio Gomiero, à Vivian Carla e à Gisele Nunes, meus cúmplices diretos... mamãe espera conhecê-los em breve... hahahaha...

"E se me empurrarem do penhasco eu vou dizer: E daí? Eu adoro voar!"
(Clarice Lispector)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Vou de táxi...

Uma das koisas mais legais que me aconteceu na última ida a Sampa foi a conversa que tive com o taxista que nos levou da Reatech até o hotel em que a Karla e eu nos hospedamos. Já era fim de tarde daquela sexta-feira. Como você pode ver na foto, entre os prédios, o sol se punha majestosamente e eu me emociono só de olhar para a paisagem concretada de São Paulo (sei lá, se vidas passadas existem, eu nasci paulistana em todas elas. Só pode!). Lembro que conversávamos sobre qualquer bobagem, provavelmente do trânsito caótico, quando o taxista - um cara, de mais ou menos, 37 ou 38 anos -, bem sem jeito, perguntou se poderia me fazer outra pergunta. Quando as pessoas me perguntam isso já sei que vem 'chumbo grosso', sei que vão perguntar algo referente à deficiência - o que, em geral, é mais constrangedor para elas perguntarem do que para eu responder... risos. Felizmente, não tenho encanação nenhuma em ter que responder qualquer tipo de pergunta sobre isso. Estou acostumada e me sinto confortável matando 'de voadora' a curiosidade alheia... risos. Eu até prefiro quando perguntam porque sei que é absolutamente normal as pessoas terem curiosidade. Eu também quero saber como são as koisas quando conheço um 'matrixiano', uai. Então respondo numa nice porque ninguém é obrigada a saber como foi, como é, como faz, etc. Além disso, quanto mais posso explicar, melhor, assim não dou margem para que as pessoas criem fantasias, mitos ou pré-conceitos. Certo?

Enfim, autorizei o cara a perguntar. O taxista, que se chamava Nilson, queria saber como foi minha infância, se me senti excluída alguma vez, etc. Achei a questão dele intrigante. Geralmente me perguntam se faço ou não tal koisa. Depois constatei que realmente havia um motivo especial para a pergunta. A filha dele é bebê, nasceu com uma doença grave de pele e ele me revelou o desejo dele (e da esposa) que a filhinha tenha uma vida normal. Então, respondi que tive uma infânia comum, sadia, que as crianças sempre queriam estar perto de mim. Inclusive, ainda tenho amigos e amigas da pré-escola. Se eu não pude pular corda, eu a rodei para que as outras crianças pulassem. Se não pude jogar vôlei, tratei de ser a juíza da partida. Se eu não pude correr e me esconder, servi para contar até 50 e gritar 'Lá vou eu!' - devagarinho, mas ia... risos. E como era bom ser criança! Gente, vamos parar de dizer por aí que as crianças são cruéis. As criancas são verdadeiras, puras e cruéis são os adultos que as ensinam a ter preconceitos. Se uma criança tem preconceito é porque um adulto introduziu esse conceito; é repetição de comportamento. Pois é, não sei se tive sorte ou o quê, mas o fato é que sempre fui tratada como os demais, apesar de ter usado orteses (os famosos aparelhos ortopédicos) até a adolescência. Até a faculdade eu fui bem paparicada. A tchurma sempre queria comprar o lanche para mim, carregar minhas pastas, etc. e ainda fiquei taxada de 'orgulhosa' por negar ajuda em algumas situações. É mole?... risos. Eu sempre dizia rindo: 'Calma, gente, não é nada pessoal, eu juro. Mas é que isso posso fazer sozinha.'. A Rubia, inclusive, quando me dava carona, parava o carro em cima da calçada da Unisantos para eu entrar com mais comodidade. E quando chovia, então? Aff, ela só faltava estacionar dentro da cantina para evitar que eu me molhasse. Eram 'micões' gostosos de pagar... risos.

Falei para o Nilson que devo toda essa jornada aos meus pais que sempre me muniram de senso de igualdade, auto-estima, responsabilidade e respeito. Minha mãe sempre conta que uma psicóloga da Reabilitação Infantil de Floripa (onde fiz fisio e hidro por muito tempo) sempre a aconselhava: 'Mãezinha, coloca sempre roupa de manga curta e bermudinha na tua filha, nunca a esconda... assim as pessoas se acostumarão com ela.'. Foi o que mamãe fez. Vai ver que foi nessa época que eu escolhi ser psicóloga... risos. Foi isso que eu disse para o taxista: como nos veem é, geralmente, como nos vemos e como nos portamos. E isso não serve só para deficiente, não. Serve para todas as pessoas. Se você se fizer de vítima, você será mesmo. Se você tem vergonha do que é, ninguém mais poderá orgulhar-se de você. Aquele trajeto da feira até o hotel durou uma eternidade. Dei meu e-mail para o Nilson, caso ele e a esposa precisassem de algo. Eu sei, eu falo mais que 'o homem da cobra', mas a vida é feita disso: de encontros... verdadeiros encontros. 

Megabeijo.

domingo, 22 de maio de 2011

Reatech 2011 - São Paulo

Karla e Karla
 Caro leitor internauta, mês passado estive novamente em São Paulo, mas dessa vez eu não estava de férias e nem sozinha. Aliás, foi a primeira vez que embarquei acompanhada. Viajei com a minha querida amiga Karla Oliveira. A Karlitcha nunca havia viajado de avião ou estado em Sampa. Foi um barato! Pensa numa pessoa divertida e autêntica. Parceirassa! Sem contar o sotaque catarinense carregado que ela levou para a 'terra da garoa'. A chará adora uma câmera digital (assim como eu), fez várias fotos durante o fim de semana da viagem, inclusive um vídeo do guri da Gol me subindo no avião ainda aqui em Floripa (http://www.youtube.com/watch?v=9pF8bk2k0bU). Achei ótima a iniciativa dela porque eu sempre só consigo tirar fotos e, dessa vez, dá para você observar como é o mecanismo da cadeira elétrica (que não dá choque e adianta um bocado a vida dos 'malacabados' que querem voar). Repare no vídeo que eu e o Hueliton mal havíamos nos conhecido e já estávamos no maior papo sobre a acessibilidade da tal cadeira. Assim que cheguei ao avião ele pediu um papelzinho para a aeromoça e anotou o nome do projeto do qual ele faz parte, a ACESA - Associação Catarinense de Esportes Adaptados. Show, né? O mais legal de viajar é encontrar pessoas, fazer contato... adoro! Logo contarei mais sobre a ACESA.

Mas o motivo que me levou a Sampa em abril foi a Reatech. Você já ouviu falar na Reatech, caro leitor internauta? Vou explicar: a Reatech é a Feira Internacional de Tecnologias para Reabilitação, Inclusão e Acessibilidade, a qual se realiza anualmente em São Paulo. Agora em 2011 o evento comemorou sua 10a. edição. Nunca fui muito ligada em entender o que era a feira e quando ela acontecia, mas nesse último ano, como estou envolvida com as questões de acessibilidade, eu não poderia perder a oportunidade de conhecer os serviços especializados em diversos segmentos (automóveis, educação, esporte, hotelaria, lazer, trabalho, etc). Além do mais, seria (e foi) uma ótima oportunidade para encontrar o pessoal 'matrixiano' com quem mantenho contato pela internet, tais como: Tabata Contri (cadeirante, atriz, modelo, linda e cheirosa), Flávia Cintra (do Fantástico), Márcio Henrique (do Pratyko), Eduardo Camara (do Blog Mão na Roda), Paula Werneck (da propaganda 'Ser diferente é normal'). Todos nas fotos abaixo.

Tabata Contri (a cheirosa)

Eduardo Camara, do Rio

Ká diz: Posso tirar uma foto com você?
Paula responde: Sim, senta aqui no meu colinho.

Flávia Cintra (do Fantástico) e Márcio Henrique (do Pratyko)


Infelizmente, não consegui encontrar a Kica de Castro (fotógrafa), o Jairo Marques (blogueiro e jornalista), o Fabinho Fernandes (o primeiro tetraplégico do mundo a saltar de páraquedas), o Billy Saga (do Movimento SuperAção), a Thaís Frota (arquiteta) e o meu amigo fofíssimo Alessandro Fernandes (o Sam, lá de BH). Mas pude conhecer pessoas bacanérrimas tipo a Márcia Gori, o Fabiano Pullmann, a Tatiana Rolim, etc. Enfim, a feira foi fantástica. Muitas entidades e empresas dedicadas a oferecer oportunidade e conforto às pessoas com deficiência. Vi tanta gente diferente (literamente) e tanta novidade para esse setor que nem sei explicar. Pena que não consegui visitar todos os stands, pois a feira era gigantesca e o tempo muito curto. Até arrisquei me inscrever nos test-drives, mas não deu tempo. E a tal da equoterapia eu também queria ter experimentado, mas desistí... a única fila para quem queria andar a cavalo estava enorme e já era a fila preferencial, só tinha 'malacabado' nela... risos... então resolvi deixar para o ano que vem. Em 2012, a Reatech acontecerá de 12 a 15 de abril. Estarei lá. Para quem quer sabr mais sobre a feira e ver fotos dessa e das edições anteriores, clica no link: http://www.reatech.tmp.br/.

Para não me estender demais nessa postagem, nos próximos posts vou continuar falando de Sampa, da acessibilidade do hotel no qual nos hospedamos e do bar que visitamos naquele fim de semana. 

Superbeijo!

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Essa vaga não é sua nem por um minuto!

Caro leitor internauta, outro dia fui pega de surpresa no Facebook com a tal foto abaixo postada no mural de um colega meu. Imediatamente cliquei no link e tratei de comentar a foto. Foi impossível conter minha revolta com campanhas ridículas, camufladas de 'educativas' como essa. Entendi perfeitamente que a intenção do autor dessa insensatez foi protestar contra quem pára indevidamente na vaga de deficiente, porém a forma como foi feito virou apologia descarada ao preconceito com os deficientes intelectuais.

Fiquei extremamente chateada, eu trabalho com a Educação Especial e conheço, de perto, a luta para a inclusão da pessoa com deficiência - sobretudo, a intelectual. Não achei legal essa piada. Primeiro porque a nomenclatura correta é 'deficiente intelectual'. E depois, porque essa placa foi uma ofensa aos deficientes intelectuais. Onde já se viu utilizar esse tipo de deficiência para ridicularizar os outros? Respeitar essa vaga é uma questão de EDUCAÇÃO, não de capacidade cognitiva. Teria que ser dito 'eventualmente usado por MAL EDUCADOS'. Tenho plena convicção de que nenhum dos alunos com os quais trabalho na Apae, por exemplo, teria a audácia de desrespeitar a sinalização. Mandei um comentário ao meu colega que, posteriormente, me respondeu desculpando-se e também ao colega dele, de quem ele havia compartilhado a foto. O moço, que eu não conhecia até então, também desculpou-se e prometeu fazer uma retratação pública (ainda estou esperando que isso aconteça).

Raramente pessoas com deficiência intelectual podem defender-se, principalmente, do preconceito. Então gastei todas as minhas energias naquele dia para protestar e achei que merecia um post no blog porque quanto maior a divulgação, maior a chance de concientizarmos, adequadamente, as pessoas. Fazer uma foto dessas é pura falta de bom senso e respeito. Acho que minha atitude é questão de cidadania e compromisso profissional. Se você também se revolta com isso e com quem estaciona em vaga de deficiente sem ter o adesivo, assista e divulgue o vídeo ao lado. É uma campanha séria e bem feita.

Superbeijo.

* Quero agradecer aos leitores que, pelo segundo ano consecutivo, indicaram o meu blog ao Prêmio Nacional do Top Blog. Valeu!

sábado, 9 de abril de 2011

O peso da escolha.

No próximo dia 11, segunda-feira, meu blog completa 1 ano de vida - primeiro de muitos, espero. Foi através dessa ferramenta que conheci pessoas incríveis e compartilhei um pouco das minhas koisas com você. Meu intuito, a princípio, era ressignificar uma grande perda. A cura das nossas dores emocionais não se dá no esquecimento, mas na atribuição de um novo sentido e significado para a ferida - que, com o tempo, vira só cicatriz. Ao longo do tempo, o blog acabou virando também um serviço de utilidade pública referente à acessibilidade, o que me deixa extremamente contente. Mas, é voltando ao objetivo inicial que pensei no texto comemorativo para esse post. Lá vai:

Foi ele quem jogou um balde de água fria no castelo de areia que construimos juntos por quase 8 anos. Eu não entendi e me neguei a viver aquela liberdade que eu não tinha escolhido ter. Cheguei a achar que não era justo. Depois de um tempo passei a reconhecer que fui eu que escolhi o nosso fim. Eu escolhi não depender dele. Escolhi não ser o 'abajur' da sala. Escolhi ter amigos. Escolhi terminar a faculdade. Escolhi voar e dirigir. Escolhi dar valor à família. Escolhi não me anestesiar toda vez que os mendigos esfregavam na nossa cara a realidade social em que vivemos. Escolhi ser honesta, fiel e compreensiva. Escolhi não gostar de rotina. Escolhi ignorar os boicotes. Escolhi acreditar na minha profissão. Escolhi gostar de falar sobre tudo. Escolhi dividir com os outros tudo que sei, mesmo que não seja muito, porque, com certeza, recebo em dobro. Escolhi ter três termos básicos no meu cotidiano: 'desculpa', 'com licença' e 'por favor'. Escolhi não ter paciência para as grosserias dele. Escolhi não curtir escândalos. Escolhi não me calar. Escolhi o diálogo. Escolhi a verdade, sempre. Desde que tive que recomeçar e me reinventar sozinha, comigo mesma, percebi que estava escolhendo ser livre, independente. Escolhi gostar de mim mesma... assim, desse jeitinho que sou. Escolhi acreditar que somos seres completos, únicos e que só uma koisa deve nos unir a outra pessoa: a admiração pelo outro. Escolhi acreditar que ninguém tem o direito de zombar dos seus sonhos e que TUDO ocorre para o nosso bem, embora demoremos a constatar isso. Escolhi não depositar no próximo atribuições e expectativas só minhas. Escolhi continuar estudando, viajando e amando. Escolhi deixar a ansiedade na potência mínima e a vontade de viver na máxima. Eu escolhi ser feliz. A gente nunca teve nada a ver um com o outro. Hoje sei o quanto me custou, mas sei que fiz todas as escolhas certas. Porque eu me curei!

Obrigada de koração (como diz meu amigo Igor: 'koração com ká')... a todos os leitores, seguidores, amigos que passaram ou passam por aqui, na minha trajetória. Vocês foram e são parte fundamental desse processo incessante de crescimento e alegria. Parabéns a todos nós!

Superbeijo.

segunda-feira, 21 de março de 2011

''Há anos peço o príncipe... Parte 2

... e só me mandam o cavalo.'' - Tati Bernardi

Resolvi dar continuidade no assunto, caro leitor internauta. No post anterior, citei rapidamente alguns tipos de cavalos (clique aqui para relembrar). Daqui para frente, dedicarei um texto para cada 'espécie' citada e para outras que eu lembrar ou que você sugerir. Vamos lá! Hoje dedico a postagem ao pior tipo de cavalo que pode existir, como já falei: aquele que quer dar fim à espécie e se envolve com uma vaca. Amiga leitora, com certeza, você conhece um cara assim. Ou você já teve ou conhece alguém que tambem já teve (ou ainda tem) um traste desse. Se você é homem, pode ser que seja desse tipo ou que tenha um amigo assim. Esse cara é um cavalo bem disfarçado de príncipe, geralmente, mas também pode ser confundido com galinha. É o tipo que tem um bom papo e te convence das koisas mais absurdas. É sedutor e encantador. É, inclusive, excelente chantagista emocional, eu diria. Com frequência faz o tipo mega-ciumento. Atenção, o Ministério das Mulheres Precavidas adverte: quem muito teme, também faz. Fica aí a dica.

Sem dúvida, ele é o dito cujo que mais nos faz sofrer. Quando ele resolve 'pastar' no gramado alheio, você fica aí choramingando e se achando as fezes do cavalo do bandido, não é mesmo? Você se sente um nada, a pior das criaturas. Você se sente feia, chata e incapaz de conquistar outra pessoa. Pois pare de pensar isso, não seja ridícula. Você é linda, maravilhosa, poderosa e a maior vingança contra esse homem é ser muito feliz... com outro! Transforme esse cavalo num pônei insignificante - porque é isso que ele é se te fez sofrer. E nem se dê ao trabalho de comunicá-lo sobre sua felicidade, já que ele deve ser indiferente na sua vida (ademais, certamente ele saberá por outros meios que você 'vai muito bem, obrigada!').

Minha amiga, acredite em mim: um dia, você vai dar graças a Deus - e até a essa vaca - que o cavalo galopou pra outro pasto. Veja bem: se ele fez com você, mais cedo ou mais tarde, fará com a outra. E se você caiu no papel de 'outra', não se iluda, colega. Ninguém é especial o suficiente ao ponto de tornar um homem fiel. Aliás, a Tati Bernardi diz algo bem inteligente quanto a isso: 'O homem não fica fiel; fica com preguiça!'. É isso mesmo. No máximo, torça para que ele seja um preguiçoso - o que é raro, porque homens desse naipe sempre têm disposição para aventuras extra-oficiais. Resumindo, o que quero dizer é que ninguém muda por ninguém. E quem faz uma vez, fará sempre que lhe convir. Se você é a 'outra' e escolheu assumir essa relação, tenha em mente que você pode ser a futura 'trocada'. Vamos combinar que a ética não é seu ponto forte e você também pode resolver, a qualquer momento, trocar de cavalo, não é mesmo? Acho que muitas vezes, nós, mulheres, esquecemos de assumir nossas responsabilidades. Logo, não podemos reclamar do que nos fazem, se fazemos o mesmo. Pense nisso! Se você já foi trocada, agradeça que esse cavalo se foi... o príncipe há de vir, não se preocupe e nem tenha pressa. E se você é esse tipo de cavalo, anote aí: um dia, você poderá ser um boi, dando, então fim à espécie. Coitadinho!

* Ando com muito bom humor e com pouco tempo para escrever, mas, aos poucos coloco as postagens em dia.

Beijo grande e ótima semana!

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Nem lateral direito, nem fotógrafo...

Há um ano atrás, na minha primeira viagem sozinha e de avião para São Paulo, tive a satisfação de encontrar o Tino Marcos (repórter esportivo da Globo) no aeroporto de Floripa, conforme contei no post 'As (des)vantagens de ter um papai-gaio' - clique no link para relembrar a história. Na ocasião, a única foto que tirei com o Tino saiu tremida. Pois bem, ontem, num evento da Ipiranga, em Floripa, fui surpreendida com a presença do Tino novamente. Durante todo esse ano que se passou, culpei meu pai por ter falado de mais e ter prestado atenção de menos da máquina fotográfica e, em todas as vezes em que o vimos na TV, nos referimos ao Tino como 'nosso amigo'. Quando o diretor da Ipiranga o chamou ao palco, papai e eu nos olhamos: 'É o nosso amigo!'. , logo fiquei pensando que depois teria que tirar outra foto com ele, já que a do ano passado ficou tremida. E dessa vez havia mais o técnico da Seleção Brasileira de Futebol para fotografar e marcar presença aqui nos meus posts. Tive a certeza de que tudo renderia uma boa história (e rendeu). Depois da 'meio-palestra, meio-entrevista' do Mano com o Tino, fomos ao saguão encontrá-los. Tenho que confessar: ser 'malacabada' me concede alguns benefícios, como por exemplo, não pegar filas para tirar foto com famosos... risos. Fotografamos eu e meu pai com o Mano (muito humilde e gentil - bem diferente do Dunga). Meu pai quis fazer uma média e disse:
- Mano, eu sou lateral.
Rindo, ele respondeu: - Bom, acho que você tá um pouquinho acima do peso.

Hahahahaha... é a mais pura verdade e, apesar de meu pai jogar os 90 minutos de uma partida, é melhor ele considerar a dica, afinal, era conselho de Mano Menezes, não é mesmo? Falei para o papai que eu, sim, deveria para a Seleção, pois sou 'Kaká', né? Se bem que papai pode substituir o Fofômeno... risos. Brincadeiras a parte, ao me aproximar do Tino Marcos, falei para ele que há uma ano tiramos uma foto no aeroporto e havia ficado tremida, então era hora de tirar outra. Ele é uma simpatia, muito sorridente e gentil, maaaaas adivinhe caro leitor internauta: papai tremeu de novo a câmera, igualzinho da primeira vez! Sorte que eu entreguei o endereço do blog para o Tino (e ele disse que passaria aqui), então quero dizer a ele que espero ter outra oportunidade para mudarmos de fotógrafo... risos.

Observação: o local do eventro, Centro de Eventos Centrosul, dispunha de toda acessibilidade: piso tátil, rampas, elevador, banheiros adaptados e auditórios planos.

Beijo grande.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Seja um pouco de criança!

Caro leitor internauta, tenho tanta koisa para fazer e tantos posts em andamento que nem sei bem por onde começar. Então resolvi parar tudo para lhe contar uma historinha que me aconteceu ontem.

Estávamos eu e Andréia no meu consultório depois do expediente acertando os detalhes de um evento sobre acessibilidade que faremos aqui em Garopaba agora em março. A Andréia também é psicóloga, uma pessoa in-crí-vel e uma profissional extremamente competente. Enquanto conversávamos no corredor da clínica rumo à saída, o filhinho dela, o Pedro de 4 anos (esse da foto) nos interrompe:
- Tia, por que você tá andando assim? Tu tá fingindo?

Hahahahahahaha... caímos na gargalhada, claro. Eu não fingiria tããão bem assim. Ou, numas hora dessas já deveria estar a caminho do tapete vermelho do Oscar concorrendo ao Prêmio de Melhor Atriz, não é mesmo? Falei para ele, então, que eu não estava fingindo, que eu ando desse jeito mesmo. E perguntei:
- ... gostastes? - Logo esperei um estranhamento, uma testa franzida, uma careta, um 'não'.
- Gostei, tia, gostei... porque é diferente!

Ah, meu Deus! Como meu dia, tão cansativo e cheio de trabalho, poderia acabar mais perfeito? Deu vontade de morder aquelas bochechas branquelas. Fui pra casa rindo do jeitinho dele. As crianças são fantásticas pelo atrevimento e pureza que nós, adultos, muitas vezes perdemos. Fiquei pensando por que crescemos e criamos tantos preconceitos? Seja criança e descomplique! Até o já Pedro sabe que ser diferente é absolutamente normal!

Beijo, beijo, beijo.

* Outra pérola do Pedrinho: 'O mundo é uma bola gigante que rebola ao redor do Sol.'
** Foto gentilmente cedida do arquivo pessoal da Andréia.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O tempo passa, o tempo voa...

Meu irmão de 11 anos chega em casa e me diz: 'Mana, tenho um segredo pra te contar: hoje eu beijei de língua a fulana.'. De repente senti meu rosto paralisado como uma estátua do Museu de Cera, mas espere aí... eu não estive em Amsterdã, então percebi que era o efeito daquela notícia que o pequeno fedelho acabara de me dar. Ai, Jesus... tratei de fazer uma cara mais relaxada, de irmã mmais velha, descolada e psicóloga. Isso mesmo, cara de 'Uhul-sou-moderna'. Aliás, é uma furada ser psicóloga nesses casos (com amigos, parentes ou seres que acabam de saber que você cursou a ciência da mente humana)... as pessoas acham que você tem a obrigação de encarar tudo com naturalidade e querem que você dê um diagnóstico convincente em 2 minutos de análise. Sei que aquele foi um bom sinal, afinal, ele me confiou um segredo. Eu não posso desmerecer isso, é fato. Mas caro leitor internauta, vou contar um segredo: eu não estou preparada pra ouvir uma koisa dessas. Como assim? Nessa hora eu só sei que sou irmã e que ele tem 11 anos. Me lembro bem que anteontem eu limpava o bumbum dele com lenço umedecido e passada Hiploglós para evitar assaduras; e foi ontem que ele começou a falar 'curiote' - palavra a qual até hoje não sabemos o significado (nem ele), mas que era bem engraçadinho; e também foi ontem que a única koisa em que ele encostava na boca era uma mamadeira. Como pode já estar beijando um ser chamado: guria?


Não é a primeira vez - e nem a última, tenho certeza - que meu irmão me deixa com cara de botox. Outro dia ele me surpreendeu com a seguinte afirmação: 'Kaká, o Little [nosso cachorro] é gay!'. O que se diz numa hora dessa, caro leitor internauta? Comecei a proferir um discurso muito bem elaborado de que, no mundo animal, não há essa questão de orientação sexual. Rá! De onde foi que tirei essa teoria? Também não sei. Quem vê pensa que assisto muito o canal Animal Planet ou que sou veterinária (deveria, dada a convivência com cavalos na ausência do príncipe, não é?). Mas também não haveria problemas em ter um cachorro gay, certo? A diversidade deve ser respeitada. Ah, sim. Isso tudo virou uma metáfora para eu defender os Direitos Humanos e de iguadade - mesmo que o papo fosse, a priori sobre cachorros. Nossa, fui interrompida por ele: 'Mana, pára de me enrolar. Eu vi o Little fazendo sexo com o cachorrO da vizinha!'.

Então tá. Os tempos são outros. Eu admito. Foi aí que lembrei que com 11 anos eu ainda brincava de Barbie! Na minha época, diversão era jogar Banco Imobiliário, não videogame; passatempo era cuidar de um Tamagoshi (esse bicho feio da foto) e não da vida dos outros pelo Orkut ou Facebook; refrigerante era Coca-cola em garrafa de vidro que você abria com abridor; e Merthiolate ardia pacas, sem contar que deixava uma mancha ridícula na pele... o machucado sarada e a pinta laranja tava lá... não sumia nem com reza braba. E também não tinha mp3, iPod ou koisa do tipo porque um cd custava, no máximo R$14,90.

Sou ainda daquela época em que, para manter uma amizade à distância, você tinha que mandar cartas. Lembro que por muito tempo foi assim que eu mantive a amizade com minha vizinha de férias de verão, Carolina Cemim, que até hoje mora na grande Porto Alegre. Sou da época em que se via Xou da Xuxa e as adolescentes eram embaladas pelos hits românticos e melosos dos Backstreet Boys... eles eram bem mais afinados e menos coloridos que as araras, digo, o Restart. Sou da época em que os sutiãs eram de algodão, koisa longe do bojo. Sou da época em que você tinha que se conformar com seu cabelo porque não existia a chapinha. Sou da época em que celular era Tijorola, um luxo. Sou da época do ICQ e do disquete e por aí vai... e olha que nem faz taaaaanto tempo assim. Hoje em dia as crianças nascem falando - sobre tudo. É muita informação sendo despejava a todo momento nos cérebros em pelo desenvolvimento. Veja bem: eles mal chegam da escola e já conversam por MSN com os colegas de classe que acabaram de ver ou fazem o mesmo com o irmão que está no quarto ao lado; a garrafa pet virou lixo descartável e objeto de decoração; você não precisa mais alugar um filme adulto para entender como os bebês são feitos, pois as mulheres do Big Brother ensinam ao vivo como fazê-los; o band-aid é colorido para você esquecer da ferida quando vê aquela estampa do Mickey Mouse sorrindo; e até shampoo ganhou tempero... o seu é com ou sem sal? Não há como evitar, mas há que saber como lidar. Eu tento, Deus sabe como tento... risos. Diz aí, caro leitor internauta, estou ou não estou ficando velha? É, estamos!


... e eu ainda caí na besteira de perguntar se, pelo menos, ele gostava da tal fulana.

'Não, eu só tava afim mesmo!'


Superbeijo.


* Beijo especial à Carol Cemim que ainda é minha amiga e que sempre acompanha o blog.